No outro dia vi um bicho

Era grande, feio e bonito. “Feio e bonito?” – perguntam vocês.

Sim, feio e bonito. Ou, como disse, grande, feio e bonito. Há bichos de todas as cores e feitios e aquele que vi era assim. Deixou-me sem saber descrevê-lo até encontrar nele um estado de pureza tal que o classifiquei assim. Bonito, pela transparência que tinha, e feio… Pelas patas. Era um bicho pequeno, aquele, e não chateava. Mas tinha patas e isso deixou-me desconfortável.

Não é engraçado? Ver bichos com patas é o meu dia a dia – o vosso – e, mesmo assim, mexeu comigo. Só mesmo um bicho…

Luzes, bandeiras, ação

E, de repente, uma explosão. As bandeiras sobem, são hasteadas e abanadas como nunca. Ouvem-se gritos e lá vêm as primeiras buzinas. As portas abrem-se e as ruas preenchem-se, deixando nas casas o vazio semi-preenchido pelos relatos que, com a pressa dos festejos, ficaram esquecidos enquanto a cidade dá lugar à maior festa da história. Gritos. Gritos de festa.

Gritos por Portugal, pela história, pelos heróis do mar que, no campo, lutaram até ao fim. Bandeiras, lenços, cachecóis, pinturas faciais. Faz-se a festa sem parar, pela noite dentro até aos motores do avião, acompanhado de dois F-16, acordarem os poucos que descansaram na noite de festa. E continua. Pela cidade toda, espaço a espaço, sempre com um grito em comum. Assim é bonito.

No topo da Europa

Aquele último segundo foi o mais longo de sempre. A bola nunca mais parava, simplesmente não queria. Até que os braços se levantaram – porque apito nem ouvi-lo – e o sonho deu lugar à festa.

Ao inacreditável.

A tudo.

Cachecóis, bandeiras, lenços, caras pintadas. Aconteceu… E aconteceu em Paris. A cidade que mesmo perdendo agora festeja. De verde, amarelo e vermelho como Lisboa e todo este “país pequeno” (mas tão grande!) por quem ninguém dava nada. Não jogaram nada de nada nos primeiros jogos, vão dizer. Não mereciam ter passado a fase de grupos, dirão atrás.

E que o digam. Que o digam enquanto empatamos, enquanto o Ronaldo falha um penalty e o Eder (perdoa-me para sempre!) se torna no jogador a entrar numa final de um Europeu perante mais assobios de sempre. Porque agora é a nossa vez de sorrir, de levantar os braços e gritar VITÓRIA. Ou tentar, porque agora já não há voz. E a festa continua.

Somos CAMPEÕES DA EUROPA.

Salto-eco

A luz natural já não era suficiente para a guiar. Procurava equilibrar-se enquanto caminhava pelas ruas sem um destino aparente. O sol estava a desaparecer, ninguém a acompanhava e tinha calçados uns sapatos de salto alto que prometiam dificultar-lhe a tarefa.

Os passos ecoavam por uma Staromestske Namesti cada vez mais vazia. Tinha um vestido que lhe ficava um pouco antes dos joelhos e um casaco de cabedal que terminava numa discreta gola de lã. E de repente desapareceu.

Era já meia-noite quando voltei a avistá-la. Estava no meio da praça, a cruzá-la, quando se assustou com o assinalar das badaladas, que fez com que acelerasse o passo depois de verificar o relógio de pulso que refletia o luar. Voltou a desaparecer tão depressa quanto surgira à minha frente pela primeira vez.

Praga, janeiro de 2016. Ficção.

Fachadas que são histórias

Rompem pelas calçadas decididas em singrar. São altas, potentes e carregam anos de história, sangue, lágrimas, amor… O que por elas já passou.

Têm colunas e arcadas, janelas e reentrâncias. Marcam as ruas, as cidades, as gentes que nelas moram.

Contam histórias, fazem viver, tiram vidas. São máscaras e encostos. São disfarces  de tempos que já passaram mas ainda cá estão. Todos os dias servem de casa a quem as tem e de encosto a quem com elas sonham.

Preenchem quarteirões, mascaram populações. Alinham-se umas às outras com mais ou menos geometria até à intersecção seguinte.

Todos os dias ali, todos os dias com a mesma carga. Faça sol, chuva ou neve, são as fachadas de uma cidade multifacetada que de belo tudo tem.

Budapeste, janeiro de 2016

(Viena) Monumental

Leões. Grandes leões. Dourados e presentes, sempre presentes. Nas esquinas, nas praças, nas fachadas.

Viena é uma cidade monumental, reflexo dos tempos em que foi capital do império austro-húngaro.

Comparada com as que lhe são próximas, transmite pouca intimidade. É uma cidade mais impessoal. Pelo menos, para quem a visita por um par de dias.

Lembro-me de passear à chuva pelas avenidas grandes, perdido, à descoberta, perplexo pela monstruosidade dos edifícios com que me ia cruzando. E lembro-me da ligação que senti quando cheguei à Ópera. Mesmo não entrando, senti. Fechei os olhos e imaginei-me sentado a fazer parte daquele mundo.

Pouco depois, era hora de voltar para a estação. Mais uma camioneta, mais um destino.

Viena, janeiro de 2016

Mudar de ano

Isto de mudar de ano tem muito que se lhe diga. O tempo vai, vem, fazem-se promessas e pedem-se desejos, pensa-se no que aconteceu e no que pode acontecer.

Mas é um dia normal. Não fosse aquela maldita reunião geral às 00:00 em cada país deste globo a que chamamos Terra, seria uma meia-noite como outra qualquer.

Isso mesmo, uma meia-noite como outra qualquer – em que a lua se esconde ou revela, dependendo dos seus ciclos, e nós a procuramos. Uma noite como outra qualquer em que a prioridade seria torná-la especial e não uma noite especial em que a prioridade é evitar que se torne numa como outra qualquer.

Há dias assim

Há dias assim. Dias em que as gotas caem e eu não posso fazer nada, dias em que as ondas chegam à costa sem esperar por mim.

É o tempo a passar e eu sem o apanhar. Vejo-o, estico-me mas não lhe chego. Por mais que tente não consigo alcansá-lo.

Uma após outra caem, fazem-me sentir a sua passagem mas escapam-me. Tão ou mais depressa do que quando em mim aterram. Apropriam-se de mim, do meu corpo, para depois dele saírem. Será justo? Será justo chegarem assim? Partirem assim? O que hei de fazer? E lá vão elas, lá vai ele, por ali, sem parar…

Lua

A lua faz-se notar enquanto ao fundo se ouve o uivar dos lobos (parte dramática e talvez fictícia deste excerto). Entretanto, caem as primeiras gotas de chuva que de nada servem para apagar a fogueira que se alastra e derrete os rechonchudos marshmallows. O telhado abriga-nos e os acordes sucedem-se uns aos outros. É o culminar de uma jornada que amanhã se repete.

setng cog