24h em Paris (e qualquer coisa como 30km)

É daquelas coisas em que já todos pensámos mas raramente levamos para a frente. Quer dizer, quem é que no seu perfeito juízo entra num avião com destino a uma das cidades mais visitadas do mundo e planos de lá regressar passadas 24h? Como se diria por esta internet fora, é insane – ou insano, uma tradução que me faz tanta confusão quanta impressão; Sobretudo pela sua sonoridade.

Mas adiante. Voei para Paris sabendo que pouco mais de 24h depois teria de regressar. E nessas 24h houve tempo e espaço para percorrer cerca de 30km a pé. Houve tempo para explorar locais já explorados, conhecer outros e captar coisas que na vezes anteriores não se tinham destacado. Houve tempo para, enfim, viver Paris. Ainda que desta vez apenas o tenha feito por 24h, houve tempo.

Contornos que rasgam o céu

Perdidos montanha dentro, caminhamos em relação ao desconhecido. À esquerda, montanhas. À direita, o mar, sempre o mar. E lá ao fundo (às vezes à frente), montanhas com contornos que rasgam o céu e tornam esta paisagem tão única.

Montanhas que fazem da costa da Croácia um dos percursos mais entusiasmantes de percorrer – um daqueles que desejamos nunca mais acabe.

Entre as poucas nuvens passam os raios de sol que refletem nas rochas mais claras e à beira mar, onde de praia e praia se vêem várias cabeças mergulhadas no calor do Mediterrâneo.

Também nós parámos, já a meio do percurso. Está calmo e quente. É uma praia única, como nunca tínhamos visto, e tão boa.

Depois o caminho continua, agora cada vez mais dentro da montanha. Curvas, contra curvas e contra curvas, sempre a subir, até aos 900m de altitude. E depois segue-se a grande descida, que eventualmente irá dar a Zadar.

Senj, Croácia

Nunca mais escrevi

Ou, pelo menos, não o que aqui costumava escrever.

Deixei-me da caneta, do próprio teclado, dos cadernos improvisados. Não que assim o tenha decidido, mas porque nos últimos tempos o tempo – essa coisa terrível que nunca para – foi tudo menos… Tempo.

O relógio tem avançado sem piedade, com os ponteiros numa corrida eterna que parece ter um certo gozo ao ver-me ficar encurralado entre acontecimentos, sonhos e objetivos.

Mas vou voltar. Digo-o sempre e volto. E agora também. Mais. Melhor. Porque tem de ser. Porque queroMuito.

There once was a boy named Harry…

Se entrar nos estúdios da Warner Bros em Watford é maravilhoso, sair deles custa. É como abandonar Hogwarts sem nunca lá ter estado. Mas a carta ainda há de chegar.

É difícil de explicar, mas aqueles estúdios transportam-nos para uma outra realidade. A realidade “paralela” que tão bem conhecemos, que começa com um carrinho e alguma hesitação a atravessarem uma parede.

Desde o primeiro minuto que tudo é mágico. O autocarro que nos transporta da estação de comboios ao estúdio da Warner vai cheio, com pequenos e graúdos ansiosos pela chegada àquelas que prometem ser as horas mais mágicas da vida de cada um. Pelo menos, no sentido literal. E são mesmo.

Dar spoilers era tirar um terço do factor surpreendente a futuras visitas e por isso não o vou fazer, mas ainda assim arrisco tentar a minha sorte descrevendo, com observações que em nada estraguem a surpresa, a experiência vivida.

Tudo é mágico. Tudo. Desde a primeira à última (ai, a última…) sala, são muitos os momentos em que a nostalgia nos assalta e causa até algum desconforto. ‘Eu já vivi isto’, penso. Olho para ela, a minha Hermione, e sorrio. E sinto que os outros à nossa volta pensam o mesmo. ‘Sei o que está ali, ali e o que acontece aqui’. Nas ruas, nas casas, no comboio, nos autocarros. As cenas de cada um dos sete livros/oito filmes vêm à memória como se acabassem de ser lidas/vistas. E a emoção não sai dali. Pelo contrário, a ela junta-se um sentimento de pertença que torna os passos mais pesados à medida que nos aproximamos do fim.

Londres, janeiro de 2017

Chinatown Underground

Caos. Caos absoluto. Qualquer que fosse a direção do próximo passo, seria sempre rumo ao caos. Mas lá dei um, depois outro, até conseguir chegar à porta do restaurante com serviço buffet que na altura pareceu mais apelativo (ou, nas palavras de um viajante on a budget, mais barato).O que estava do outro lado, bem, isso ainda estava por descobrir.

Quando a porta se abriu o cheiro a noodles tomou conta de mim. Deixei-me levar e ignorei tudo o que se passava à minha volta, até que me sentei e comecei a perceber a fábrica onde acabara de entrar.

Não passou um piscar de olhos completo desde o momento em que me sentei até à primeira abordagem. Um senhor baixinho, de metro e meio, pouco mais, cabelo escuro e óculos a fazer lembrar uma série dos anos 80 aproximou-se. ‘No credit card, no debit card, no card, no card. Cash, cash, cash’, disse, quase gritando. ‘To drink? To drink? Chinese tea? No credit card, no credit card, 14,80£, pay now, pay now, then eat. No card!’

Qual fábrica de peluches, aquele buffet no meio da Chinatown londrina funcionava a 300km à hora (ou minhas, porque como sabemos bem gostam de nos trocar as voltas com medidas a que só eles ligam). Era minúsculo no rés do chão, tinha talvez capacidade para 20 pessoas bem apertadinhas, em mesas que abanavam e onde o espaço para os pés era poupado. À vista, uma dispensa privada, para onde levavam o dinheiro imediatamente após receberem um dos pagamentos – ao rapaz baixinho e à rapariga, também ela pequena e tímida, juntava-se, para esta tarefa, um rapaz de maior envergadura, já mais autoritário e com um tique na cara que o fazia revirar os olhos e parte do lábio de forma constante. Através de um espelho consegui eventualmente perceber que havia uma escadaria para uma outra cave mas não lhe prestei mais atenção.

Curiosamente, este que parecia o buffet mais barato de Chinatown era aquele que mais membros da comunidade chinesa os recebendo. É, à partida, um bom indicador em relação à comida, pensei. E a verdade é que não desiludiu. Os noodles cumpriam, os legumes também e os pequenos crepes lá estavam para, ainda que não totalmente, satisfazerem qualquer estômago esfomeado depois de horas de caminhada pelo centro de uma das cidades mais populadas do mundo. Mesmo a uma terça-feira de manhã. Mesmo com pingas de chuva como ameaça.

À medida que o tempo passava, o estômago ficava cheio e o cérebro recuperava a capacidade de observar e interpretar tudo a que os olhos assistiam em tempo real, começava a compreender melhor esta fábrica de que estou a falar. Ali não interessavam, na verdade, as pessoas. Só as carteiras e aquelas notas que agora começam a ser, imagine-se, de plástico. O ‘only cash, only cash’ que tanto se ouvia e lia, inclusive, nas paredes não era difícil de compreender. Era aliás o mais fácil: sem rasto de multibanco ou recibos, controlam a sua própria faturação. Entre muitas outras coisas.

Quando um cliente entrava, ouvia um frio ‘good afternoon’. A fome dominava-o e, por isso, não se apercebia, mas como disse, encher o estômago permitiu-me ir observando o que acontecia com os outros agora que a minha vez já tinha passado. A segunda frase, muito mais animada e audível era, adivinhe-se, ‘no card, only cash, no card, only cash’. Quando se sentavam, estavam já a ver ser-lhes retirado da mão o dinheiro, que era rapidamente transportado para a mini-sala junto à entrada. O rapaz do tique estava atento. Antecipava-se aos clientes e lia-lhes as expressões sempre com um olho na porta que guardava o ‘ouro’.

Quando um prato era levantado, já estava a ser colocado outro. Assim mesmo, de um segundo para o outro. As pessoas eram arrastadas para a primeira mesa que estivesse livre e depois, no final, discretamente convidadas a sair. Chinatown não pára e os donos da fábrica de dinheiro – perdão, de noodles – sabem-no. Se se preocupam em colocar um sinal na parede a dar conta de uma penalização de 5£ por cada 500g de comida deixadas no prato, muito mais se preocupam em certificar que todos saem o mais rapidamente possível. Porque depois vêm outros e outros e outros…

Na meia hora em que estive neste restaurante, passaram pela porta mais de 50 pessoas. Umas para comer no estabelecimento, outras para levar e seguirem a sua vida. Em comum, à primeira vista apenas a pressa e a frieza com que eram recebidos. Porque, tal como eu, o permitiam. Estavam dominados pela fome e fracos demais para perceber que estavam numa fábrica e não num restaurante. E que eles eram os piões mais valiosos que ali podiam entrar. Agora que penso bem, é uma jogada de mestre. Pelo menos, para um restaurante chinês nas profundezas de Chinatown.

Londres, janeiro de 2017

Cemitério de cabines

Dizer que as cabines telefónicas vermelhas de Londres são um ícone da cidade é dizer pouco.

Estão em cada rua de cada bairro, muitas vezes lado a lado e com vista privilegiada para os principais pontos de interesse da cidade. Estão lá todos sabem com que propósito mas… Ninguém as utiliza.
Claro que são constantemente invadidas para uma selfie, um vídeo, uma photoshoot ou qualquer outro fenómeno que domine os dias de hoje, mas não é esse o verdadeiro propósito de uma cabine telefónica. Ou talvez seja, nos dias de hoje.

Ainda estão bem vermelhinhas. Grande parte parece pronta a ser utilizada, mas são desprezadas. Em cinco dias e meio em Londres, não vi uma única pessoa a entrar numa cabine telefónica para fazer uma verdadeira chamada, uma que alguém de facto atendesse. Mas a verdade é que também (já) não o esperava.

Ao contrário dos jornais, que são uma constante nas mãos de qualquer londrino que viaje de metro diariamente – quer de manhã, quer à tarde, quer à noite, com as edições que saem e são distribuídas na segunda metade do dia –, as cabines telefónicas não resistiram aos ares dos tempos. Ou melhor, o seu interior não resistiu. A “carcaça”, essa, continua a ser muito requisitada – e talvez até mais do que nunca.

Londres, janeiro de 2017

Boas vindas

Todos os dias às 7h, lá está ela.

Vermelha, sólida mas fininha, sempre sempre por baixo do tabuleiro, como se de um apoio se tratasse.

Em cima, mais tímidas e com uma forma que faz lembrar (e cheirar a…) algodão doce, as restantes sobreviventes de uma manhã quase perfeita.

Todos param, todos olham, todos fotografam. Só os mais corajosos se atrevem a atravessá-las. De vez em quando, lá vem um, depois avião, que na sua timidez passa pelo meio dos dois pilares da ponte e assim a cruzam na chegada a Lisboa.

São as boas vindas. E o desejar de um “bom dia”.

A folha

Há dias entrou uma folha no quarto e nunca mais a deixo sair.

Já perdi a conta às vezes em que a afastei da varanda para assim evitar que não resista à tentação de ser levada pelo vento. Está morta, bem sei, mas ainda assim questiono-me em relação a esta decisão. Depois olho para ela, castanha tons de outono, e penso que o tempo chegará. Quando o sol se puser mais cedo e o laranja voltar a ser a cor predominante nas grandes avenidas.

Jardineiro

Trabalhava de forma discreta quando todos à sua volta continuavam com as suas tarefas com total ignorâcia em relação ao que fazia.

Pegava primeiro numa folha, depois noutra, até que todas estavam arranjadas. Quando chegava a hora de as regar, espalhava o cheiro a terra pelo Open Space como se de um perfume se tratasse. Que maravilha!

De regador vermelho na mão – bem contrastante em relação a tudo o resto que trazia – passava ao canteiro seguinte sem nunca tirar o olhar do anterior, que fitava enquanto assobiava de forma quase inaudíve até lá voltar para um último ajuste.

E lá ia ele, por ali fora com terra na camisa e um sorriso de bochecha a bochecha. Eu? Eu fiquei com o cheiro a terra acabada de regar, uma verdadeira delícia que me acompanhou durante tudo o que me restava daquela manhã.

setng cog