Chinatown Underground

Caos. Caos absoluto. Qualquer que fosse a direção do próximo passo, seria sempre rumo ao caos. Mas lá dei um, depois outro, até conseguir chegar à porta do restaurante com serviço buffet que na altura pareceu mais apelativo (ou, nas palavras de um viajante on a budget, mais barato).O que estava do outro lado, bem, isso ainda estava por descobrir.

Quando a porta se abriu o cheiro a noodles tomou conta de mim. Deixei-me levar e ignorei tudo o que se passava à minha volta, até que me sentei e comecei a perceber a fábrica onde acabara de entrar.

Não passou um piscar de olhos completo desde o momento em que me sentei até à primeira abordagem. Um senhor baixinho, de metro e meio, pouco mais, cabelo escuro e óculos a fazer lembrar uma série dos anos 80 aproximou-se. ‘No credit card, no debit card, no card, no card. Cash, cash, cash’, disse, quase gritando. ‘To drink? To drink? Chinese tea? No credit card, no credit card, 14,80£, pay now, pay now, then eat. No card!’

Qual fábrica de peluches, aquele buffet no meio da Chinatown londrina funcionava a 300km à hora (ou minhas, porque como sabemos bem gostam de nos trocar as voltas com medidas a que só eles ligam). Era minúsculo no rés do chão, tinha talvez capacidade para 20 pessoas bem apertadinhas, em mesas que abanavam e onde o espaço para os pés era poupado. À vista, uma dispensa privada, para onde levavam o dinheiro imediatamente após receberem um dos pagamentos – ao rapaz baixinho e à rapariga, também ela pequena e tímida, juntava-se, para esta tarefa, um rapaz de maior envergadura, já mais autoritário e com um tique na cara que o fazia revirar os olhos e parte do lábio de forma constante. Através de um espelho consegui eventualmente perceber que havia uma escadaria para uma outra cave mas não lhe prestei mais atenção.

Curiosamente, este que parecia o buffet mais barato de Chinatown era aquele que mais membros da comunidade chinesa os recebendo. É, à partida, um bom indicador em relação à comida, pensei. E a verdade é que não desiludiu. Os noodles cumpriam, os legumes também e os pequenos crepes lá estavam para, ainda que não totalmente, satisfazerem qualquer estômago esfomeado depois de horas de caminhada pelo centro de uma das cidades mais populadas do mundo. Mesmo a uma terça-feira de manhã. Mesmo com pingas de chuva como ameaça.

À medida que o tempo passava, o estômago ficava cheio e o cérebro recuperava a capacidade de observar e interpretar tudo a que os olhos assistiam em tempo real, começava a compreender melhor esta fábrica de que estou a falar. Ali não interessavam, na verdade, as pessoas. Só as carteiras e aquelas notas que agora começam a ser, imagine-se, de plástico. O ‘only cash, only cash’ que tanto se ouvia e lia, inclusive, nas paredes não era difícil de compreender. Era aliás o mais fácil: sem rasto de multibanco ou recibos, controlam a sua própria faturação. Entre muitas outras coisas.

Quando um cliente entrava, ouvia um frio ‘good afternoon’. A fome dominava-o e, por isso, não se apercebia, mas como disse, encher o estômago permitiu-me ir observando o que acontecia com os outros agora que a minha vez já tinha passado. A segunda frase, muito mais animada e audível era, adivinhe-se, ‘no card, only cash, no card, only cash’. Quando se sentavam, estavam já a ver ser-lhes retirado da mão o dinheiro, que era rapidamente transportado para a mini-sala junto à entrada. O rapaz do tique estava atento. Antecipava-se aos clientes e lia-lhes as expressões sempre com um olho na porta que guardava o ‘ouro’.

Quando um prato era levantado, já estava a ser colocado outro. Assim mesmo, de um segundo para o outro. As pessoas eram arrastadas para a primeira mesa que estivesse livre e depois, no final, discretamente convidadas a sair. Chinatown não pára e os donos da fábrica de dinheiro – perdão, de noodles – sabem-no. Se se preocupam em colocar um sinal na parede a dar conta de uma penalização de 5£ por cada 500g de comida deixadas no prato, muito mais se preocupam em certificar que todos saem o mais rapidamente possível. Porque depois vêm outros e outros e outros…

Na meia hora em que estive neste restaurante, passaram pela porta mais de 50 pessoas. Umas para comer no estabelecimento, outras para levar e seguirem a sua vida. Em comum, à primeira vista apenas a pressa e a frieza com que eram recebidos. Porque, tal como eu, o permitiam. Estavam dominados pela fome e fracos demais para perceber que estavam numa fábrica e não num restaurante. E que eles eram os piões mais valiosos que ali podiam entrar. Agora que penso bem, é uma jogada de mestre. Pelo menos, para um restaurante chinês nas profundezas de Chinatown.

Londres, janeiro de 2017

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