Dois cones

As pernas enfraquecidas, dobradas, a ceder. Um cone numa mão, um cone na outra. Movido pelo amor que o dominava, lá ia. De gelado na mão para a sua outra metade. As pernas a tremer. Devagar. Muito devagar. Lá ia. E foi. Com dois cones azuis, um de chocolate, outro de baunilha.

Estavam os dois sentados numa das mesas de um café. Sem pressa, sem compromissos pela frente. Sentados a comer um gelado como há 50 anos, pela primeira vez. O mundo resumia-se àquele instante. Àquele gelado. Aos dois. Os dois cones e os dois corações. As duas mãos dadas.

Desta feita avançara lentamente, abordara a mesa pelo lado direito para se sentar no esquerdo enquanto uma gota da invejável bola de chocolate escorria pela sua mão. O caminho não fora o melhor, o gelado escorrera. Mas isso interessava? No olhar dele só havia outro: o dela, radiante por ver o gelado mas, sobretudo, radiante por o ver voltar. Todos os dias. Mais ou menos depressa, mas todos os dias.

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